Sem perdão do Estado, morre motorista inocentado no acidente de Juscelino Kubitschek

Absolvido pela Justiça em 1978, Josias Nunes de Oliveira morreu aos 82 anos antes de receber o pedido formal de desculpas que vinha sendo preparado pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.
Josias Nunes de Oliveira morreu carregando uma marca que a Justiça havia retirado de seus autos, mas que permaneceu por décadas na vida pública e pessoal. Motorista de um ônibus da Viação Cometa em 1976, ele foi apontado durante a ditadura militar como responsável pela sequência de eventos que terminou na morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek e de seu motorista, Geraldo Ribeiro, na Via Dutra.
A acusação formal não resistiu ao processo criminal. Josias foi inocentado em primeira instância em 1977, e a absolvição foi confirmada em 1978. Ainda assim, segundo relatos prestados por ele a comissões da verdade, a absolvição judicial não apagou o estigma. Por quase cinco décadas, o nome dele continuou associado à versão de que o ônibus teria provocado a tragédia.
O caso envolve três camadas distintas: a morte de JK e Geraldo Ribeiro em 1976, a acusação criminal contra Josias e a revisão histórica conduzida por comissões de memória, que voltou a tratar o episódio como parte da violência política do período da ditadura.
Os dados centrais do caso
Ficha do caso
O que ocorreu em 1976
Juscelino Kubitschek morreu em 22 de agosto de 1976, quando o Opala em que viajava pela Rodovia Presidente Dutra se envolveu em uma colisão fatal. Também morreu no episódio Geraldo Ribeiro, motorista do ex-presidente.
A versão sustentada pelas autoridades durante a ditadura apontava que o ônibus dirigido por Josias teria atingido a traseira do carro de JK, fazendo o veículo atravessar o canteiro central e bater de frente contra uma carreta. Essa versão levou Josias ao processo criminal.
O processo, no entanto, terminou com a absolvição do motorista. Ainda assim, a acusação seguiu pesando fora dos tribunais. Em depoimentos posteriores, Josias relatou humilhações, hostilidade pública e sofrimento por ter sido chamado de assassino do ex-presidente.
Linha do tempo
Juscelino Kubitschek e o motorista Geraldo Ribeiro morrem em ocorrência na Via Dutra.
Josias Nunes de Oliveira é acusado de homicídio culposo, mas acaba inocentado em primeira instância.
A absolvição é confirmada em segunda instância, e o caso criminal é arquivado.
Josias presta depoimento em audiência pública e nega envolvimento na morte de JK, relatando que foi pressionado a assumir culpa.
A CEMDP reconhece JK no rol de vítimas da ditadura e informa que deve organizar pedido formal de desculpas a Josias.
Josias morre em Indaiatuba, aos 82 anos, antes de receber a retratação formal do Estado.
A absolvição retirou Josias do processo criminal. A demora do Estado impediu que ele recebesse em vida uma reparação pública completa.
A diferença entre absolvição e reparação
A absolvição de Josias encerrou a acusação no campo judicial. Mas a reparação pública é outra etapa. Ela envolve reconhecimento institucional, pedido de desculpas, correção da narrativa oficial e esforço para impedir que a versão falsa continue sendo repetida como fato histórico.
Essa diferença é central para entender o caso. Uma pessoa pode ser inocentada pela Justiça e, mesmo assim, continuar socialmente condenada quando o Estado, os registros públicos e a memória coletiva não corrigem a acusação com a mesma força com que ela foi difundida.
O que a CEMDP decidiu em 2026
Em 2026, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos anunciou que JK entraria oficialmente no rol de vítimas da ditadura. O relatório apresentado pela comissão contestou a versão consolidada durante o regime militar e reacendeu o debate sobre a morte do ex-presidente.
No mesmo contexto, o Ministério Público Federal informou que a CEMDP deveria organizar um pedido formal de desculpas a Josias Nunes de Oliveira, identificado como o motorista do ônibus apontado pela versão oficial da época como suposto causador do acidente.
Josias morreu antes da solenidade de reparação. A morte dele, portanto, ocorreu no intervalo entre o reconhecimento institucional da injustiça e a formalização pública do pedido de desculpas.
O processo criminal e o que consta no Judiciário
O Museu da Justiça do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro mantém referência ao processo de Juscelino Kubitschek. O registro informa que, em 1977, Josias foi acusado de homicídio culposo e inocentado em processo composto por quatro volumes, com fotografias dos veículos, reportagens, laudos periciais e outros documentos sobre o desastre.
Esse dado é importante porque separa a acusação inicial do resultado judicial. O motorista foi processado, mas não condenado. A absolvição não impediu que seu nome continuasse associado à tragédia em parte da memória pública do caso.
| Ponto verificado | Informação | Importância |
|---|---|---|
| Acusação | Josias respondeu por homicídio culposo. | Mostra que houve responsabilização formal tentativa. |
| Decisão | Foi absolvido em 1ª instância e teve a absolvição confirmada em 1978. | O processo criminal não confirmou a culpa. |
| Documentação | O processo possui quatro volumes, com laudos, fotos e reportagens. | Permite consultar a construção documental do caso. |
| Reparação | A CEMDP preparava pedido de desculpas formal. | Mostra que a absolvição judicial não encerrou o dano público à biografia de Josias. |
O depoimento de Josias
Em audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em 2013, Josias negou envolvimento no acidente e relatou ter recebido proposta para assumir culpa no episódio. A audiência integrava discussões sobre a morte de JK e a revisão da versão oficial sustentada durante a ditadura.
O relato ajuda a entender por que a história de Josias ultrapassa o processo criminal. Ele não foi apenas um motorista absolvido. Tornou-se personagem de uma disputa sobre memória, responsabilidade do Estado, versões oficiais e danos provocados por acusações mantidas durante décadas.
Por que o caso ainda importa
Mostra o peso de uma acusação pública
Mesmo sem condenação, uma acusação estatal pode marcar uma pessoa por décadas quando a correção não chega com a mesma visibilidade da culpa atribuída.
Expõe a diferença entre arquivo judicial e memória coletiva
A Justiça absolveu Josias, mas parte da narrativa pública continuou vinculando seu nome ao episódio. O caso mostra que documentos não bastam quando a história oficial permanece distorcida.
Reforça a importância de reparações em vida
Pedidos de desculpas e correções oficiais têm impacto simbólico e humano. Quando chegam tarde, podem corrigir registros, mas não devolvem à pessoa a chance de ver sua honra reconhecida publicamente.
Como checar casos históricos de responsabilização
Em casos antigos envolvendo mortes, acusações criminais e revisão histórica, a checagem deve separar quatro tipos de documento: processo judicial, laudos técnicos, relatórios de comissões da verdade ou de reparação e depoimentos públicos.
Também é necessário diferenciar versão oficial da época, decisão judicial e revisão histórica posterior. No caso de Josias, essa separação é essencial: ele foi acusado, absolvido e, décadas depois, voltou ao centro do debate por causa da revisão da narrativa sobre a morte de JK.
O que fica do caso
A morte de Josias Nunes de Oliveira fecha uma história sem reparação em vida. A Justiça já havia reconhecido que ele não deveria ser condenado pela morte de JK e Geraldo Ribeiro, mas o reconhecimento público demorou quase meio século para avançar.
O caso permanece como exemplo de como uma acusação oficial pode sobreviver à própria absolvição. Também mostra que corrigir a história não é apenas revisar documentos: é devolver nome, contexto e dignidade a quem carregou uma culpa que o processo não confirmou.
Perguntas rápidas
Quem foi Josias Nunes de Oliveira?
Foi o motorista de ônibus da Viação Cometa acusado de ter provocado a sequência do acidente que matou Juscelino Kubitschek e Geraldo Ribeiro em 1976.
Josias foi condenado?
Não. Ele foi absolvido em primeira instância em 1977, e a decisão foi confirmada em segunda instância em 1978.
Quando ele morreu?
Josias morreu em 16 de junho de 2026, em Indaiatuba, no interior de São Paulo, aos 82 anos.
Por que se fala em pedido de desculpas do Estado?
Porque a CEMDP informou que deveria organizar um pedido formal de desculpas a Josias, apontado pela versão oficial da época como suposto causador do acidente.
Qual é a relação com Juscelino Kubitschek?
JK morreu em 1976 na Via Dutra, e Josias foi acusado de ter provocado a sequência da colisão. A acusação não se sustentou judicialmente.

