Davi Alcolumbre: Como o Homem sem Diploma se Tornou o “Porteiro” da Constituição Brasileira
Davi Alcolumbre não é um político de grandes oratórias, nem um ideólogo que inflama multidões. Ele é, antes de tudo, um mestre da aritmética parlamentar e do silêncio estratégico. No cenário político de Brasília, onde muitos brilham e queimam rapidamente como meteoros, Alcolumbre construiu um reator nuclear de influência que opera no subsolo da Praça dos Três Poderes. Esta é a anatomia de uma trajetória que transformou um jovem de Macapá no “porteiro da República”.
O Enigma da Formação: O “Doutor” das Leis sem Diploma
A biografia oficial de Davi Samuel Alcolumbre Tobelem começa com uma contradição que persegue sua imagem pública. Nascido em 1977, em uma das famílias mais ricas e tradicionais do Amapá, de origem judaica sefardita, Davi cresceu entre os balcões do comércio e os bastidores do poder local.
Entretanto, ao analisarmos seu currículo acadêmico, encontramos um hiato. Alcolumbre cursou Ciências Econômicas no Centro de Ensino Superior do Amapá (CEAP), mas nunca concluiu a graduação. Politicamente, isso se tornou um ponto de crítica ácida: como um homem com Ensino Superior Incompleto pode presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o órgão que avalia a constitucionalidade de todas as leis do país e sabatina ministros do Supremo Tribunal Federal?
A resposta de Davi sempre foi pragmática: sua escola foi a prática. Mas, para os críticos, essa ausência de formação técnica é compensada por uma “formação em articulação” que beira o maquiavelismo, onde o entendimento da lei cede espaço ao entendimento do interesse dos pares.
II. A Escada de Degraus Duplos: Do Amapá ao Baixo Clero
Davi não caiu de paraquedas no Senado. Sua carreira é uma construção de paciência:
• 2001: Elege-se vereador em Macapá aos 23 anos.
• 2003 – 2015: Atravessa três mandatos como Deputado Federal.
Durante esses 12 anos na Câmara, Alcolumbre foi um figurante de luxo. Pertencia ao chamado “Baixo Clero” — deputados que raramente aparecem no Jornal Nacional, mas que dominam a arte de liberar emendas e cuidar de suas bases. Ele aprendeu ali que o poder em Brasília não se conquista gritando no plenário, mas apertando as mãos certas nas comissões menos visadas.
Em 2014, ele deu o salto de fé. Disputou o Senado contra Gilvam Borges. Ninguém apostava em Davi, mas ele venceu por uma margem estreita, beneficiado por uma divisão nas elites locais. Ele chegava ao Senado como uma incógnita, um jovem senador de um estado periférico que, em cinco anos, dobraria os joelhos da República.
III. O “Golpe de Mestre” de 2019: A Batalha das Cédulas
O ano de 2019 é o divisor de águas. Com a vitória de Jair Bolsonaro, o Congresso buscava uma “nova cara”. Alcolumbre, então um senador pouco expressivo do Democratas (DEM), viu o vácuo deixado pelo desgaste de Renan Calheiros.
O que se viu na eleição para a Presidência do Senado foi um dos episódios mais vergonhosos e fascinantes da história legislativa. Davi presidiu a sessão que ele mesmo disputava. Houve gritaria, documentos arrancados das mãos de senadores e a famosa “fraude da urna”, onde apareceram 82 votos para 81 senadores presentes.
Davi manobrou o regimento com uma audácia que chocou os veteranos. Ao derrotar Renan Calheiros, ele não entregou a “nova política” prometida, mas sim uma versão rejuvenescida e mais eficiente da velha política de trocas. Ele se tornou o homem que o governo Bolsonaro precisava para aprovar suas pautas, e o preço cobrado seria alto.
IV. O Legado Legislativo: Entre Reformas e Engavetamentos
Sob a presidência de Alcolumbre e sua subsequente liderança na CCJ, o Brasil viu movimentos tectônicos no seu ordenamento jurídico.
O que ele aprovou:
1. Reforma da Previdência (2019): Alcolumbre foi o fiador da reforma no Senado. Ele garantiu que a tramitação fosse rápida, isolando a oposição e negociando diretamente com governadores a “PEC Paralela”.
2. Marco Legal do Saneamento: Um projeto que abriu caminho para bilhões em investimentos privados, mas que também foi criticado por favorecer grandes grupos em detrimento de estatais regionais.
3. Indicações ao STF: Ele conduziu as sabatinas de Kassio Nunes Marques e, após um bloqueio estratégico de quatro meses, a de André Mendonça. Este último episódio mostrou que Alcolumbre tinha o poder de paralisar o Executivo se seus interesses (especialmente sobre o controle de verbas) não fossem atendidos.
V. O Lado Sombrio: O Mapa da Mina e os Escândalos
Nenhuma matéria investigativa sobre Davi Alcolumbre estaria completa sem mergulhar no pântano de denúncias que o cercam. Se ele é o “Imperador do Amapá”, seu império é mantido por métodos que desafiam a ética pública.
1. O Escândalo das Rachadinhas (Gabinete de Fantasmas)
Em 2021, uma investigação revelou um esquema de corrupção sistêmica dentro do seu gabinete. Seis mulheres — algumas em situação de vulnerabilidade social — foram contratadas com salários de até R$ 14 mil. O detalhe sórdido? Elas nunca trabalharam. Elas entregavam seus cartões bancários e senhas para operadores de Alcolumbre, recebendo apenas uma “ajuda de custo” de R$ 400 a R$ 800. O restante do dinheiro público voltava para as mãos do esquema. Davi negou, mas as provas documentais de saques em dinheiro vivo pintam um quadro devastador de desvio de finalidade.
2. O Orçamento Secreto e o “Tratoraço”
Alcolumbre é considerado o arquiteto mor do Orçamento Secreto (RP9) no Senado. Ele transformou a peça orçamentária da União em um mecanismo de “toma lá, dá cá” sem transparência.
Através desse mecanismo, ele direcionou mais de R$ 270 milhões para o Amapá. O escândalo do “Tratoraço” revelou que esses recursos foram usados para comprar tratores com sobrepreço de até 259%. Enquanto o povo do Amapá sofria com apagões históricos, as verbas de Davi compravam máquinas caras para aliados políticos em prefeituras do interior.
3. O Feudalismo do Século XXI
No Amapá, o poder de Alcolumbre é onipresente. Ele controla a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) no estado, utilizando a estatal como uma máquina de obras eleitoreiras. Críticos afirmam que ele criou um ecossistema onde nenhuma obra acontece e nenhum cargo é ocupado sem o selo de aprovação da família Alcolumbre.
VI. Conexões Perigosas e o “Pacto de Silêncio”
Outro ponto que merece investigação é a relação de Alcolumbre com o Judiciário. O senador é conhecido por promover jantares e encontros informais com ministros do STF. Essa proximidade levanta dúvidas sobre a imparcialidade de possíveis julgamentos contra ele. No Brasil de Davi, a política, o orçamento e a justiça parecem sentar-se à mesma mesa de jantar.
VII. Crítica Final: O Preço da Estabilidade
A vida de Davi Alcolumbre é o reflexo de um sistema político que premia o articulador em detrimento do estadista. Ele é eficiente? Sim. Ele aprovou reformas necessárias? Sim. Mas a que custo?
O custo de Alcolumbre para o Brasil é a institucionalização da opacidade. Ele provou que um senador não precisa de diplomas, de ética inabalável ou de um projeto de nação claro; ele precisa apenas do controle das chaves do cofre. Ao transformar o Senado em um balcão de negócios, ele garantiu sua longevidade, mas feriu de morte a transparência pública.
Hoje, Alcolumbre prepara seu retorno à Presidência do Senado em 2025. Ele caminha para o cargo com o apoio de gregos e troianos, de lulistas a bolsonaristas. Por quê? Porque todos sabem que, no reino de Davi, o que importa não é o que se diz no microfone, mas o que se assina por baixo da mesa.
Davi Alcolumbre não é apenas um senador; ele é o sintoma de uma democracia que aprendeu a conviver com as sombras em troca de uma falsa sensação de governabilidade.
Nota do Editor:
Esta matéria foi compilada com base em registros parlamentares, reportagens investigativas de veículos como Veja, Folha de S. Paulo e O Globo, além de dados de transparência do Senado Federal. O espaço permanece aberto para a defesa do senador, que sistematicamente nega irregularidades em seus processos.
