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Real completa 32 anos após nascer da URV e atravessar resistência no Congresso

Moeda começou a circular em 1º de julho de 1994, depois da criação da URV, da edição de medidas provisórias e de debates no Congresso Nacional.

O real completa 32 anos em circulação nesta quarta-feira, 1º de julho. A moeda entrou no bolso dos brasileiros em 1994, no governo Itamar Franco, após uma sequência de medidas econômicas e legislativas que buscavam encerrar o ciclo de hiperinflação no país.

Antes da nova moeda, o Brasil havia passado por sucessivos planos econômicos frustrados, como Cruzado, Bresser, Verão, Collor 1 e Collor 2. O trauma mais recente era o Plano Collor, de 1990, que bloqueou poupanças e aplicações financeiras.

A criação do real ocorreu em um ambiente de desconfiança política e econômica. Parlamentares discutiam os efeitos da mudança sobre salários, contratos, aluguéis, preços e poder de compra da população.

A nova moeda foi precedida pela Unidade Real de Valor, a URV, criada para reorganizar preços e contratos antes da troca definitiva do cruzeiro real pelo real.

Da URV ao real

A URV começou a vigorar em 1º de março de 1994. Ela não era uma moeda física, mas uma unidade de conta usada como referência para preços, salários, contratos e obrigações.

Durante a transição, o cruzeiro real continuou circulando, enquanto a URV servia como base estável de comparação de valores.

A estratégia buscava reduzir a inflação inercial, mecanismo em que a inflação passada era incorporada automaticamente aos preços futuros.

Em 1º de julho de 1994, a URV foi convertida em real. Na data de referência, R$ 1 passou a equivaler a 1 URV, correspondente a 2.750 cruzeiros reais.

Tramitação passou por medidas provisórias

O caminho legislativo começou em 27 de fevereiro de 1994, quando o governo editou a Medida Provisória 434, responsável pela criação da URV.

A primeira medida provisória perdeu eficácia sem votação final. O governo reeditou a proposta por meio da MP 457, que também caducou.

A terceira versão, a MP 482, avançou no Congresso e deu origem à Lei 8.880, sancionada em 27 de maio de 1994.

A tramitação recebeu 286 emendas, apresentadas por parlamentares que buscavam alterar pontos da transição monetária.

Congresso teve resistência e apoio

O Plano Real enfrentou resistência de partidos de oposição, especialmente PT, PCdoB e PDT, que criticavam a associação entre a estabilização econômica e a candidatura de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República.

A oposição também apontava preocupação com salários, renda, contratos, aluguéis, desemprego e efeitos sociais da política econômica.

No Congresso, a maioria apoiou o plano, e a proposta acabou aprovada na Câmara e no Senado.

A discussão parlamentar envolveu comissões mistas, reedições de medidas provisórias, projetos de lei de conversão, acordos de plenário e votações nem sempre nominais.

Equipe econômica e governo Itamar

O Plano Real foi implantado durante o governo de Itamar Franco.

Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda até março de 1994, tornou-se o principal rosto político do plano e deixou o ministério para disputar a Presidência naquele ano.

Rubens Ricupero assumiu a Fazenda em março de 1994, no período decisivo de implantação da nova moeda.

A formulação econômica contou com nomes como Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha, Clóvis Carvalho e Winston Fritsch, entre outros integrantes da equipe.

Moeda entrou em circulação em julho de 1994

Em 30 de junho de 1994, véspera da entrada do real em circulação, o governo editou a Medida Provisória 542, que estabeleceu regras de emissão, conversão e funcionamento da nova moeda.

A partir de 1º de julho, o real passou a ser a unidade do Sistema Monetário Nacional, com curso legal em todo o território brasileiro.

A chegada da moeda às ruas não encerrou a tramitação legislativa. O real começou a circular ainda amparado por medida provisória.

A regulamentação definitiva foi consolidada pela Lei 9.069, sancionada em 29 de junho de 1995.

Inflação caiu logo após a mudança

Em junho de 1994, antes da entrada do real, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, havia chegado a 47,43% no mês.

Em julho, primeiro mês da nova moeda, o IPCA caiu para 6,84%.

Em agosto de 1994, o índice recuou para 1,86%. Em dezembro daquele ano, chegou a 1,71%.

A redução da inflação teve efeito direto sobre a vida cotidiana, especialmente em um período em que os brasileiros conviviam com remarcações frequentes de preços e perda acelerada do poder de compra.

Plano substituiu choques anteriores

O Plano Real se diferenciou de experiências anteriores por não começar com congelamento generalizado de preços nem confisco de ativos financeiros.

A transição foi feita em etapas: primeiro, a criação da URV como unidade de referência; depois, a conversão da URV em moeda.

A estabilização também foi acompanhada por política de controle de emissão monetária, juros elevados, câmbio valorizado e tentativa de ajuste fiscal.

O desenho buscava reorganizar os preços relativos e reduzir a indexação que alimentava a inflação.

Impacto político em 1994

A queda rápida da inflação alterou o ambiente político da eleição presidencial de 1994.

Fernando Henrique Cardoso, associado publicamente ao plano, venceu a eleição no primeiro turno.

Itamar Franco encerrou o governo vinculado à implantação da moeda que substituiu o cruzeiro real.

O real passou a ser o principal símbolo econômico daquele período, tanto pela estabilização dos preços quanto pela reorganização do debate político em torno da inflação.

Legado monetário

Ao completar 32 anos, o real permanece como a moeda oficial do Brasil.

Sua criação marcou o fim da sequência de trocas monetárias que acompanhou a crise inflacionária das décadas anteriores.

O plano também abriu caminho para mudanças posteriores na política econômica, como a adoção do câmbio flutuante e do regime de metas de inflação a partir de 1999.

A trajetória da moeda começou antes de sua circulação nas ruas, com a construção da URV, a negociação no Congresso e a aprovação das bases legais que sustentaram a transição monetária.

Redação

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