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Os 4 pássaros venenosos que a ciência descobriu — e que desafiam tudo o que sabemos sobre aves

Cobras, aranhas e sapos costumam dominar o imaginário dos animais perigosos. Mas existe um grupo de aves que carrega toxinas mortais nas penas, na pele e até nos órgãos — e a maioria das pessoas nunca ouviu falar delas

Quando o ornitólogo Jack Dumbacher foi soltar um pássaro preso em suas redes de pesquisa na Papua Nova Guiné, em 1989, saiu com os dedos dormentes e uma sensação de queimação intensa. Ele não sabia ainda, mas aquela ave canora colorida carregava batracotoxina — a mesma encontrada em sapos venenosos da América Central, considerados os animais mais venenosos do planeta. A descoberta mudou para sempre o que a ciência pensava sobre aves.

Since 2003, Jack Dumbacher has served as the Academy’s curator of ornithology and mammalogy, using both fieldwork and collections to advance research on birds worldwide. Gayle Laird © California Academy of Sciences

Desde então, ao menos 12 espécies de aves venenosas foram descobertas. A maioria vive exclusivamente na ilha de Papua Nova Guiné e compartilha a mesma toxina mortal. Apesar das descobertas, o mistério persiste: de onde exatamente vem esse veneno?

Confira os quatro pássaros venenosos mais notáveis já catalogados pela ciência.

1. Pitohui-encapuzado (Pitohui dichrous)

Pitohui-encapuzado (Pitohui dichrous)

O mais famoso de todos — e o ponto de partida de toda a pesquisa sobre aves tóxicas. O composto responsável pelo veneno do pitohui é a batracotoxina, um alcaloide extremamente poderoso que se instala nas penas, na pele e nas caspas da ave. Transmitida pelo simples toque, essa toxina causa formigamento, dormência, queimação, lacrimejamento e crises de espirros. Em altas doses, pode levar à paralisia, parada cardíaca e até à morte.

Em 1992, Dumbacher e seus colaboradores confirmaram que os pitohuis encapuzados carregam a batracotoxina — uma toxina mais mortal do que o cianeto e entre as substâncias mais letais do reino animal.

O veneno não é produzido pelo próprio corpo da ave. Ele vem da dieta baseada em um tipo específico de besouro que possui as toxinas — curiosamente, os mesmos besouros responsáveis pelo veneno dos sapos mais mortais do planeta. Os nativos da Papua Nova Guiné já conheciam o perigo há gerações: chamavam o pitohui de “pássaro do lixo” e só o consumiam em situações de extrema necessidade, após preparo especial.

2. Ifrit de capa azul (Ifrita kowaldi)

Blue-capped ifrita (Ifrita kowaldi).
 Nik Borrow/CC BY-NC 2.0

O ifrit de capa azul ficou famoso por seu nível de toxicidade e tem o corpo de cor mais discreta, compensado por uma coroa proeminente de penas azuis. Estudos apontam que o pássaro se alimenta de espécies de besouros que possuem a mesma toxina encontrada em seu corpo, de acordo com a Academia de Ciências da Califórnia.

Conhecido como “pássaro amargo”, vive em florestas montanhosas com muita umidade e causa danos um pouco inferiores aos do pitohui encapuzado — mas ainda suficientes para colocá-lo entre as aves mais perigosas do mundo. Assim como seu parente colorido, não fabrica seu próprio veneno: acumula as toxinas progressivamente pela alimentação ao longo da vida.

3. Little Shrikethrush (Colluricincla megarhyncha)

O little shrikethrush é o terceiro pássaro venenoso descoberto em Papua Nova Guiné. Ao contrário do pitohui e do ifrit, ele tem aparência simples — coberto de penas verde-oliva e marrom, com tom cinza nos pés e nas pernas. Prefere ambientes terrestres úmidos, próximos a lagos e rios. Em comparação com as outras duas espécies, foi o que apresentou os menores níveis de veneno no organismo quando examinado.

Near-lateral view of a Rufous Shrike-thrush (photo courtesy of M. Eaton) [Pullenvale, QLD, September 2023]

O little shrikethrush é o terceiro pássaro venenoso descoberto em Papua Nova Guiné. Ao contrário do pitohui e do ifrit, ele tem aparência simples — coberto de penas verde-oliva e marrom, com tom cinza nos pés e nas pernas. Prefere ambientes terrestres úmidos, próximos a lagos e rios. Em comparação com as outras duas espécies, foi o que apresentou os menores níveis de veneno no organismo quando examinado.

Sua discrição física é, de certa forma, enganosa: por não ostentar cores vivas de alerta, passou décadas sem que os pesquisadores suspeitassem de sua natureza tóxica. O veneno, mais uma vez, vem da cadeia alimentar — e não de uma glândula própria.

Codorna Europeia (Coturnix coturnix)

Codorniz común (Coturnix coturnix) elegida Ave del año 2020
 SEO/Birdlife

A mais surpreendente da lista — e a que mais afeta seres humanos. A codorna comum chega facilmente ao topo da lista de aves venenosas. Embora pareça inofensiva, o perigo de envenenamento por codornas atingiu tais níveis que justifica seu próprio nome científico para a condição: coturnismo. A ave retira o veneno de sua dieta, mas apenas sazonalmente — dependendo da localização, as codornas são perigosas apenas durante a migração de primavera ou outono. As teorias atuais sugerem que elas comem sementes tóxicas da planta da hortelã.

Diferente das espécies da Papua Nova Guiné, a codorna europeia é amplamente consumida como alimento em vários países — o que torna o risco ainda mais relevante. Fora da época de migração, o pássaro é totalmente seguro para consumo. Mas no período crítico, sua carne pode causar intoxicação grave em humanos.

O que todas têm em comum

Nenhuma dessas aves produz veneno — todas o acumulam pela alimentação. A principal teoria é o consumo de besouros do gênero Choresine, embora não haja certeza, já que esses insetos talvez apenas acumulem a toxina de outras fontes, como plantas ou microrganismos do solo.

O mistério segue aberto. Em 2023, pesquisadores identificaram duas espécies inéditas de aves tóxicas — a primeira descoberta do tipo em quase 20 anos — e planejam novas expedições à Papua Nova Guiné até 2028. A natureza, ao que tudo indica, ainda guarda surpresas com asas.

Redação

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