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Países em que o crime (quase) não existe: o que os lugares mais seguros fazem diferente

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Islândia, Nova Zelândia e Suíça aparecem no topo do índice mundial de paz em 2026. A vida cotidiana nesses lugares é muito segura, mas homicídios, furtos, violência doméstica e fraudes continuam existindo.

Por Redação Ponto de Vista BR — Atualizado em 21 de julho de 2026

Imagine voltar para casa a pé durante a noite sem mudar de calçada, entrar no transporte público olhando o celular ou deixar uma criança ir sozinha à escola. Em alguns países, situações que exigem atenção constante em outras partes do mundo fazem parte da rotina. Isso criou a fama de lugares onde o crime “quase não existe”.

A expressão é atraente, mas precisa de contexto. Nenhum país é livre de crimes, e a segurança não pode ser medida por um único número. Uma nação pode ter pouquíssimos homicídios e ainda enfrentar furtos, agressões sexuais, violência dentro de casa, golpes bancários ou ataques pela internet.

O Global Peace Index de 2026, elaborado pelo Instituto para Economia e Paz, compara 163 países e territórios por meio de 23 indicadores. O levantamento considera segurança social, conflitos internos e externos e militarização. Portanto, ele mostra quais países são mais pacíficos em sentido amplo, não apenas onde há menos ocorrências policiais.

Os cinco países mais pacíficos em 2026

1º lugar
IslândiaLidera o índice pelo 19º ano consecutivo e combina baixa violência, estabilidade e pouca militarização.
2º lugar
Nova ZelândiaDestaca-se pela estabilidade institucional e pela distância de grandes zonas de conflito.
3º lugar
SuíçaUne estabilidade política, baixa taxa de homicídios e instituições públicas consolidadas.
4º e 5º
Eslovênia e IrlandaCompletam o grupo dos cinco primeiros colocados no ranking global de 2026.

Essa classificação não significa que o quinto colocado seja necessariamente mais perigoso nas ruas do que o primeiro. A posição final também muda conforme gastos militares, participação em conflitos, manifestações violentas e relações com países vizinhos.

Islândia: por que ela ocupa o primeiro lugar

Com população pequena, alto nível de confiança social e ausência de forças armadas permanentes, a Islândia ocupa uma posição singular. O país tem polícia civil e integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte, mas não mantém um exército convencional.

O indicador de homicídios do Banco Mundial registra para a Islândia aproximadamente uma morte intencional por 100 mil habitantes em 2023, último ano disponível na série consultada. É uma taxa baixa, mas não é zero. Em países pouco populosos, poucos casos adicionais também podem alterar bastante a taxa de um ano para outro.

A reputação de segurança vem da combinação entre baixa violência letal, menor exposição a conflitos e forte sensação de segurança cotidiana. Segundo o índice de bem-estar da OCDE, 85% dos islandeses afirmam sentir-se seguros ao caminhar sozinhos à noite, acima da média dos países avaliados.

Nova Zelândia: paz não significa ausência de vítimas

A Nova Zelândia aparece em segundo lugar no ranking de 2026. A localização geográfica, a estabilidade política e o baixo envolvimento em conflitos ajudam sua pontuação. Ainda assim, a própria polícia mantém painéis atualizados mensalmente sobre furtos, roubos, agressões, violência familiar e outras formas de vitimização.

Um relatório histórico da polícia neozelandesa contabilizou 1.174 vítimas de homicídio entre 2007 e 2022. O documento também mostrou que homens representaram 66% das vítimas e que mulheres eram maioria entre as mortes ligadas à família. O dado desmonta uma conclusão perigosa: um país seguro no conjunto da população pode continuar sendo inseguro para determinados grupos e dentro de determinados ambientes.

Assim, a Nova Zelândia é corretamente descrita como uma das nações mais pacíficas, mas não como um território sem criminalidade. Segurança nacional e experiência individual não são a mesma coisa.

Suíça: o terceiro lugar também registra milhares de crimes

A Suíça associa segurança a estabilidade econômica, serviços públicos, governos locais fortes e instituições previsíveis. A baixa violência letal contribui para sua imagem, enquanto a neutralidade e o menor envolvimento direto em conflitos favorecem sua posição no índice de paz.

Os registros oficiais, porém, mostram atividade criminosa real. O Escritório Federal de Estatística informou 554.963 infrações ao Código Penal suíço em 2025 e 55 homicídios consumados. Grande parte das ocorrências não envolve violência letal, mas o total evidencia por que “crime inexistente” é apenas uma forma de falar.

Outro desafio mudou de endereço: o crime digital mais do que dobrou no país desde 2020, segundo a estatística federal divulgada em 2025. Golpes, invasões e fraudes podem crescer mesmo quando ruas e transportes continuam seguros.

Eslovênia e Irlanda: pequenas no mapa, grandes no ranking

A Eslovênia chegou ao quarto lugar mundial em 2026. O país da Europa Central tem pouco mais de dois milhões de habitantes, participa da União Europeia e se beneficia de estabilidade interna e baixa exposição a conflitos. Cidades compactas e uma rede pública estruturada ajudam a criar a percepção de tranquilidade.

A Irlanda ficou em quinto. Sua posição reflete baixa militarização, estabilidade e bons resultados em segurança social. Mesmo assim, furtos, agressões, tráfico de drogas e violência doméstica fazem parte das preocupações das autoridades irlandesas.

Nos dois casos, o tamanho da população exige cuidado. Um número absoluto pequeno de crimes pode parecer quase irrelevante diante dos registros de países muito maiores. Para comparar realidades, pesquisadores usam taxas por 100 mil habitantes, pesquisas de vitimização e indicadores de confiança — não somente o total de boletins de ocorrência.

Singapura e Japão: segurança cotidiana com outros problemas

Singapura e Japão não integram os cinco primeiros lugares gerais do índice de 2026, mas são referências quando a comparação se concentra em segurança cotidiana e baixa violência letal. A diferença mostra novamente que um ranking de paz inclui fatores além da criminalidade das ruas.

Singapura combina policiamento, fiscalização, infraestrutura urbana e aplicação rigorosa das leis. Mesmo assim, a polícia registrou 20.857 crimes físicos em 2025, alta de 4,4% em relação ao ano anterior. Furtos em lojas, violações da intimidade e delitos de natureza sexual aparecem nos relatórios oficiais.

No Japão, as taxas de homicídio permanecem entre as menores do mundo e 77% da população declarou sentir-se segura ao caminhar sozinha à noite, conforme a OCDE. O país, contudo, enfrenta golpes de investimento e romance, fraudes telefônicas e grupos que recrutam executores pelas redes sociais. Em abril de 2025, o governo lançou um novo conjunto nacional de medidas contra fraudes.

O Japão também ajuda a entender a diferença entre crime registrado e crime vivido. Vergonha, medo, relação entre vítima e agressor e confiança na investigação influenciam a decisão de denunciar. Isso ocorre em todos os países e afeta especialmente crimes sexuais, violência doméstica e golpes contra idosos.

Por que comparar apenas boletins de ocorrência engana

Mais registros não significam automaticamente mais criminalidade. Um país com delegacias acessíveis, canais digitais e confiança na polícia pode receber mais denúncias do que outro onde vítimas acreditam que procurar as autoridades não terá resultado.

As leis também variam. Uma conduta pode ser registrada como crime em um país e tratada em outra categoria no país vizinho. Há diferenças de definição, atualização, qualidade estatística e ano de referência. Por isso, bases internacionais costumam usar homicídios como um dos indicadores mais comparáveis: a morte é mais difícil de permanecer invisível do que furto, ameaça ou fraude.

Nem o homicídio resolve tudo. Ele mede a forma mais grave da violência, mas não informa sozinho se mulheres se sentem seguras, se turistas são alvos de batedores de carteira ou se idosos estão perdendo economias em golpes digitais.

O que os países mais seguros têm em comum

Não existe uma fórmula única, e seria incorreto atribuir o resultado apenas a penas duras ou à riqueza. Os países citados adotam modelos diferentes, mas alguns elementos aparecem com frequência:

  • Instituições previsíveis: polícia, Justiça e serviços públicos funcionam com regras conhecidas e fiscalização.
  • Confiança social: moradores tendem a colaborar, denunciar ocorrências e acreditar que as normas serão aplicadas.
  • Prevenção: iluminação, transporte, desenho urbano, educação e políticas sociais reduzem oportunidades e fatores de risco.
  • Baixa circulação de armas: conflitos cotidianos têm menor probabilidade de terminar em morte quando o acesso a armas de fogo é limitado.
  • Capacidade de adaptação: governos, bancos e empresas atualizam medidas à medida que o crime migra para celulares, redes sociais e pagamentos digitais.

Esses fatores não eliminam o comportamento criminoso. Eles reduzem oportunidades, aumentam a possibilidade de resposta e impedem que parte da violência alcance níveis epidêmicos.

O crime desapareceu ou apenas mudou?

Nos países mais seguros, o perigo costuma ser menos visível. O assalto armado pode ser raro, mas o criminoso pode operar de outro continente, enviar uma falsa oportunidade de investimento e convencer a vítima a transferir dinheiro voluntariamente. Singapura informou queda de 24,8% nos casos de golpes e crimes cibernéticos em 2025, mas o tema continua ocupando posição central na estratégia policial.

Essa transformação explica por que a tranquilidade nas ruas não autoriza descuido absoluto. Turistas ainda devem proteger documentos e cartões; moradores precisam verificar mensagens, links e pedidos de transferência; vítimas de violência doméstica ou sexual continuam necessitando de canais seguros de denúncia.

Os rankings mostram que sociedades podem reduzir drasticamente a violência e tornar a liberdade de circular uma experiência comum. O que eles não mostram é um lugar onde a maldade humana deixou de existir. A conclusão mais honesta é também a mais interessante: o crime não desaparece, mas pode deixar de comandar a rotina de um país.

Fontes consultadas

Classificação e metodologia do Global Peace Index 2026, do Instituto para Economia e Paz; indicador internacional de homicídios intencionais, do Banco Mundial com dados da ONU; percepção de segurança reunida pelo Better Life Index da OCDE; registros de 2025 da Polícia de Singapura; relatório de 2025 da Agência Nacional de Polícia do Japão; estatísticas de 2025 do Escritório Federal de Estatística da Suíça; relatório histórico da Polícia da Nova Zelândia. Consulta realizada em 21 de julho de 2026.

Redação

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