Ativista indiano Sonam Wangchuk encerra greve de fome de 26 dias após protesto contra vazamento do exame nacional de acesso à Medicina
Engenheiro e ativista Sonam Wangchuk encerra 26 dias sem comer depois de o governo indiano garantir que não tomará medidas legais contra os manifestantes e prometer discutir no parlamento o vazamento do principal exame de acesso a cursos de Medicina do país.
O ativista e engenheiro indiano Sonam Wangchuk encerrou, na quinta-feira (23), uma greve de fome que durou 26 dias, após o governo da Índia garantir que não tomaria medidas legais contra os manifestantes que participaram dos protestos em Jantar Mantar, em Nova Délhi, nem contra aqueles que marcharam até o parlamento na semana anterior. Wangchuk, de 59 anos, perdeu cerca de 11 quilos ao longo do jejum.
O protesto teve início em 28 de junho e foi motivado pela suspeita de vazamento em larga escala do National Eligibility cum Entrance Test (NEET), principal exame de acesso aos cursos de Medicina e Odontologia da Índia. A National Testing Agency, responsável pela aplicação da prova, chegou a cancelar a edição inicial do exame diante das denúncias, obrigando mais de dois milhões de estudantes a refazer o teste.
Internação forçada em meio à piora da saúde
Ao longo do protesto, o estado de saúde de Wangchuk se deteriorou de forma acentuada. No dia 18 de julho, após 20 dias sem se alimentar, ele foi levado à força para um hospital em Nova Délhi por determinação do Tribunal Superior da capital indiana, que também passou a exigir o acompanhamento médico diário do ativista por profissionais do governo. Segundo seu médico à época, havia risco de hipocalemia, uma queda perigosa nos níveis de potássio no sangue que pode afetar o funcionamento do coração.
A remoção forçada gerou protestos de apoiadores de Wangchuk contra a internação e críticas à atuação da polícia, acusada por parte da oposição de agir de forma autoritária durante a operação. Mais de 65 parlamentares de diferentes partidos políticos visitaram o ativista ou assinaram cartas pedindo que ele interrompesse o jejum antes do desfecho desta semana.
Quem é Sonam Wangchuk
Wangchuk é uma figura de destaque na região do Himalaia conhecida como Ladakh, reconhecido internacionalmente por projetos de educação e sustentabilidade, entre eles o chamado Ice Stupa, uma estrutura de gelo artificial criada para armazenar água e enfrentar a escassez hídrica na região. Ele já havia sido detido por seis meses em um episódio anterior, ligado a manifestações em defesa de maior autonomia política para Ladakh, sendo libertado em março deste ano.
Sua trajetória como educador e ativista climático inspirou, inclusive, um dos maiores sucessos do cinema indiano, o que ajudou a projetar nacionalmente sua imagem antes de ele se tornar uma figura central nos protestos por reformas educacionais e direitos políticos no país.
Promessas do governo e o que vem a seguir
Além de garantir que não haveria retaliação legal contra os manifestantes, o governo indiano se comprometeu a levar o caso do vazamento do NEET para debate formal no parlamento, além de discutir reformas mais amplas no sistema de exames de acesso ao ensino superior no país. Wangchuk anunciou o fim do jejum em publicação nas redes sociais, agradecendo autoridades políticas e lideranças da região de Ladakh que o visitaram ou pediram publicamente que ele interrompesse o protesto.
Por que um protesto sobre provas virou uma questão nacional
O caso ultrapassou os limites de uma disputa pontual sobre um exame porque o NEET funciona, na prática, como porta de entrada para praticamente todas as vagas de Medicina e Odontologia do país, em uma nação de mais de 1,4 bilhão de habitantes onde a concorrência por essas vagas já é historicamente altíssima. Um vazamento em larga escala nesse contexto não afeta apenas alguns candidatos isolados, mas coloca em xeque a credibilidade de todo o processo seletivo para milhões de famílias que apostam nesses cursos como caminho de ascensão social, o que ajuda a explicar por que um protesto iniciado por um único ativista ganhou apoio de dezenas de parlamentares e repercussão nacional em poucas semanas.
Fontes consultadas
Observador — ativista indiano encerra greve de fome após 26 dias; e Revista Oeste — Justiça determina internação de Wangchuk. Consulta em 27 de julho de 2026.

