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‘A Ferrari mais feia da história’: 1º carro elétrico da marca derruba ações após repercussão

A Ferrari Luce, primeiro elétrico da marca, foi apresentada em Roma com 1.000 cavalos, zero emissões e preço de R$ 3,2 milhões. A internet respondeu comparando o design a um Tesla. As ações despencaram 7,8%. E a questão que ficou foi filosófica: pode uma Ferrari não parecer uma Ferrari?

Ferrari Luce. Foto: divulgação/Ferrari. Foto: div

As ações da Ferrari caíram quase 8% depois que críticos detonaram o visual de seu primeiro veículo totalmente elétrico — um revés na polêmica aposta da fabricante italiana de supercarros no mercado de elétricos.

O carro se chama Luce. Custa 550 mil euros. Tem 1.000 cavalos. E, segundo boa parte da internet, parece um Honda com pretensões.

A apresentação da Luce teve reação amplamente negativa de analistas do setor e influenciadores de redes sociais, que compararam o design do modelo de quatro portas e cinco lugares ao de veículos elétricos de massa.

A crítica mais direta veio de dentro do próprio mercado financeiro. Pierre-Olivier Essig, chefe de pesquisa da AIR Capital, escreveu em nota que o carro parece uma mistura entre um Honda Accord EV e um Tesla 3. “Estamos perdidos na tradução com a nova estratégia da Ferrari.”

A queda das ações veio após uma apresentação em Roma que marcou a etapa final de uma revelação em três fases do veículo elétrico, iniciada no ano passado com a tecnologia central do carro, seguida da exibição de seu interior. Depois de cair até 7,8% no início do pregão em Milão, a ação recuava 6,4% às 13h37, na maior queda desde outubro.

O homem que fez o iPhone — e agora fez uma Ferrari

Para entender a polêmica do design, é preciso entender quem o assinou.

Para a Luce, a Ferrari se afastou do estilo associado ao chefe de design Flavio Manzoni e recorreu a Jony Ive, ex-chefe de design da Apple Inc., para desenhar o veículo. A Luce foi desenvolvida com Ive e Marc Newson, na LoveFrom — o coletivo criativo fundado pelo ex-responsável pelo iPhone e pelo Mac.

O resultado traz superfícies suaves e menos detalhes, refletindo a influência de Ive e marcando uma ruptura com o estilo tradicionalmente musculoso da Ferrari.

A Ferrari a descreveu como uma “casa de vidro”, uma forma em casca que se estende abaixo da linha de cintura até as bordas do carro. A Luce é mais suave, mas também mais familiar — sua forma envidraçada e mais limpa se aproxima dos estilos que estão se tornando comuns em veículos elétricos.

❝ Estamos perdidos na tradução com a nova estratégia da Ferrari. ❞ — Pierre-Olivier Essig, chefe de pesquisa, AIR Capital

O uso incomum de vidro é uma das características definidoras da Luce. Apesar de toda a tecnologia incorporada ao carro, ele causa uma primeira impressão um tanto discreta. A aposta da Ferrari é que a agilidade, o som e a resposta na estrada façam o que o design por si só talvez não faça: fazer um carro elétrico de cinco lugares parecer inconfundivelmente uma Ferrari.

(Imagem: Ferrari/Reprodução)

Embora o design tenha decepcionado muitos, dirigi-la ainda pode gerar opiniões diferentes. A Luce entrega o equivalente a pouco mais de 1.000 cavalos de potência e atinge 100 quilômetros por hora em 2,5 segundos — mais rápido que o SUV Purosangue, com motor V12, da própria Ferrari. A velocidade máxima é superior a 310 km/h.

O carro é movido por quatro motores elétricos, um para cada roda, com um pacote de baterias de alta voltagem projetado e construído em Maranello.

A plataforma elétrica permitiu à Ferrari instalar cinco assentos pela primeira vez — algo impossível com a tradicional configuração transaxle da marca. A Luce também terá um porta-malas de 600 litros, espaço potencialmente suficiente para duas bolsas de golfe ou três malas grandes.

Hermès sobre rodas — ou um erro de cálculo?

Por trás do debate estético há uma questão estratégica mais profunda.

A Ferrari tem reiterado que continuará oferecendo aos clientes uma escolha entre motores a combustão interna, híbridos e elétricos. O plano da empresa para 2030 reduziu pela metade a participação prevista de carros totalmente elétricos, para 20% da linha, mirando o dobro disso em modelos a combustão.

A Ferrari tem hoje o maior valor de mercado entre as montadoras europeias, embora produza menos de 14 mil carros por ano — bem abaixo dos quase 9 milhões da Volkswagen AG. Ainda assim, suas ações caíram 31% nos últimos 12 meses, em meio a temores sobre a força da demanda global por produtos de luxo.

O lançamento ocorre em um momento em que a demanda por veículos elétricos de alta gama se tornou mais difícil de prever e alguns rivais, como Lamborghini e Porsche AG, desaceleraram seus planos de eletrificação, citando falta de interesse de compradores.

Como pares de luxo bem-sucedidos, como Hermès e Rolex, a Ferrari há muito tempo depende de listas de espera e de uma oferta cuidadosamente gerida para proteger a exclusividade. A escassez não é um efeito colateral do negócio, mas uma ferramenta que a empresa usa para sustentar demanda e preços.

❝ Ferrari Luce não é uma resposta à mudança. É uma decisão deliberada de liderar o que vem a seguir. ❞ — John Elkann, presidente-executivo, Ferrari

O som — o ronco que define uma Ferrari tanto quanto o cavallino rampante no capô — é outro desafio central. A Ferrari disse que passou cinco anos e 40 mil quilômetros de testes em pista para desenvolver a assinatura acústica do carro. Em vez de imitar de forma sintética o ronco de um motor a combustão, a empresa capta o zumbido dos motores elétricos por meio de um sensor no eixo traseiro e depois processa e amplifica o som.

Analistas do Bernstein, liderados por Stephen Reitman, escreveram que a Ferrari não embarcou nisso às cegas, e esperam que haja clientes e colecionadores suficientes, novos e antigos, para garantir que a Luce consolide sua posição dentro da linha da marca.

A reação inicial, no entanto, se soma a tropeços recentes da Ferrari, que no ano passado apresentou metas de longo prazo que decepcionaram investidores e levantaram dúvidas sobre como irá equilibrar a tecnologia elétrica com os modelos a combustão, ainda centrais para a marca.

O mercado foi rápido. O veredicto, duro. Mas a Ferrari já vendeu supercarros incompreendidos antes — e muitos viraram ícones. A Luce ainda tem a estrada pela frente.

Redação

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