Quase 100 mortos no pior acidente de mineração da China em décadas
Uma explosão de monóxido de carbono na mina de Liushenyu, na China, matou ao menos 82 trabalhadores na sexta-feira. É o pior desastre do setor no país em 17 anos. O governo prometeu punição severa. Mas o setor de carvão ainda emprega 1,5 milhão de pessoas sob protocolos considerados frouxos.

Ao menos 82 pessoas morreram em uma explosão de gás em uma mina de carvão no norte da China — o pior desastre desse tipo no país em 17 anos. O governo de Pequim prometeu castigos severos e abriu investigação. Mas a tragédia expôs, mais uma vez, uma ferida antiga: o carvão que move a China também enterra seus trabalhadores.
Um total de 247 trabalhadores estavam na mina quando a explosão ocorreu às 19h29 no horário local. A maioria foi resgatada e levada para a superfície. Quase 350 socorristas foram mobilizados para o local.
Wang Yong era um deles. O minerador ferido contou à emissora estatal CCTV que de repente viu uma nuvem de fumaça e sentiu cheiro de enxofre. Viu várias pessoas ao redor sufocando e desmaiou. “Fiquei no chão por cerca de uma hora e acordei sozinho. Gritei para as pessoas ao meu lado e saímos da mina juntos”, disse ele.
O relato resume o que foi aquela noite: caos, escuridão, gás invisível, e uma corrida contra o relógio em túneis soterrados de fumaça tóxica.
A mídia estatal indicou que níveis de monóxido de carbono — um gás tóxico e inodoro — foram registrados na mina e ultrapassaram os limites. Um relatório inicial indicava quatro mortes e dezenas de pessoas presas nos escombros, algumas em estado crítico. O número de mortos rapidamente subiu para dezenas.
❝ Fiquei no chão por cerca de uma hora e acordei sozinho. Gritei para as pessoas ao meu lado e saímos da mina juntos. ❞ — Wang Yong, minerador sobrevivente
O pior em 17 anos — e a conta que o governo tenta fechar
Este incidente é o pior desastre em minas na China desde 2009, quando outra explosão matou 108 trabalhadores na província de Heilongjiang, no nordeste do país.
A comparação é pesada. 2009 era outro tempo — de menos fiscalização, menos câmeras, menos pressão da mídia internacional. Que um desastre de magnitude semelhante tenha acontecido em 2026 levantou questões imediatas sobre o que, de fato, mudou.
O prefeito da cidade de Changzhi, Chen Xiangyang, confirmou o balanço oficial: 82 mortos, 2 desaparecidos com buscas em andamento e 128 feridos hospitalizados. As autoridades haviam divulgado inicialmente 90 mortos — número que foi revisado para baixo à medida que o resgate avançou.
Uma pessoa “responsável” na empresa envolvida na explosão foi “colocada sob controle de acordo com a lei”, informou a agência Xinhua. A identidade não foi divulgada. A empresa tampouco.
O presidente Xi Jinping pediu que “todos os recursos” fossem mobilizados para cuidar dos feridos e solicitou uma investigação completa do incidente. Em comunicado, Xi enfatizou que “todas as regiões e departamentos devem aprender com este acidente, permanecer constantemente vigilantes em relação à segurança no local de trabalho e prevenir e conter com determinação a ocorrência de acidentes e desastres graves.”
O governo também ordenou medidas mais amplas. Todas as regiões e autoridades competentes foram instruídas a tomar posição firme contra atividades ilegais e ilegítimas no setor de mineração e a investigar e punir os responsáveis de acordo com a lei.
Shanxi: carvão, pobreza e o preço que os trabalhadores pagam
A mina está localizada a 500 quilômetros a sudoeste de Pequim, na província de Shanxi — uma das mais pobres da China, mas também um dos seus mais importantes centros de mineração de carvão.
É uma contradição que se repete em regiões mineradoras no mundo inteiro: a terra que gera energia para a nação raramente vê essa riqueza circular de volta. O que fica são os túneis, a poeira e o risco.
A segurança nas minas chinesas melhorou nas últimas décadas, assim como a cobertura midiática de incidentes graves, que antes eram frequentemente silenciados. No entanto, acidentes continuam frequentes em um setor onde os protocolos de segurança são muitas vezes frouxos.
Em 2023, 53 pessoas morreram no desabamento de uma mina de carvão a céu aberto na região norte da Mongólia Interior. Antes disso, dezenas de outros episódios menores — raramente noticiados fora do país — somaram centenas de mortes ao longo da última década.
❝ Apesar da rápida expansão das renováveis, a China ainda depende do carvão — e 1,5 milhão de pessoas trabalham nessas minas. ❞ — AFP / Xinhua
Apesar da rápida expansão das energias renováveis, a China é o maior emissor de CO₂ do mundo e o maior consumidor de carvão — recurso que considera uma solução confiável para o fornecimento intermitente das renováveis. Só as minas de carvão empregam mais de 1,5 milhão de pessoas no país.
Esse número explica por que fechar as minas não é uma opção política simples. E por que os acidentes continuam acontecendo: há um peso econômico, social e político enorme para manter a produção funcionando — às vezes às custas dos protocolos que deveriam proteger quem desce nos elevadores de minério todo dia.
Os 82 mortos de Shanxi são, portanto, mais do que uma tragédia. São o sintoma de uma equação que a China ainda não resolveu: crescer sem queimar seus próprios trabalhadores junto com o carvão.
Fontes: AFP · Agência Xinhua · Emissora estatal CCTV · SWI swissinfo.ch · O Tempo

