US$ 29 bilhões gastos e nenhuma paz à vista: Trump vai à China pedir o que os bombardeios não conseguiram
Enquanto o custo da guerra contra o Irã supera todas as projeções iniciais, o presidente americano desembarca em Pequim em busca de uma saída diplomática que as bombas não entregaram.
Há algo revelador no itinerário do presidente Donald Trump nesta quarta-feira (13): depois de semanas insistindo que a guerra contra o Irã estava “sob controle”, ele embarcou no Air Force One em direção a Pequim. O destino diz tudo o que as declarações oficiais tentam esconder.
A guerra já custou aos cofres americanos pelo menos US$ 29 bilhões — valor que o próprio Pentágono admitiu ao Congresso ser superior à estimativa de US$ 25 bilhões divulgada apenas duas semanas atrás. E especialistas de Harvard alertam que o conflito pode chegar à casa de US$ 1 trilhão quando somados os custos de longo prazo: veteranos, reposição de arsenal e reconstrução de infraestrutura militar.
O que Trump quer de Xi
O objetivo central da visita — a primeira de um presidente americano à China desde 2017 — é convencer o líder chinês Xi Jinping a pressionar Teerã a reabrir o Estreito de Ormuz, pelo qual passava cerca de 20% do petróleo mundial antes do início do conflito. Com o estreito bloqueado desde março, os preços do barril de petróleo permanecem próximos de US$ 106 — ante US$ 70 antes da guerra.
O problema é que Xi sabe exatamente o quanto vale essa moeda de troca. A guerra com o Irã, aliado estratégico de Pequim, colocou Trump em posição de fraqueza incomum. “A guerra no Irã deu ao presidente Xi fontes de influência que ele não teria antecipado ter no início deste ano”, avalia Ali Wyne, do International Crisis Group.
Há ainda um elemento de pressão adicional: os Estados Unidos precisam de minerais raros chineses para repor o estoque de mísseis interceptores consumido durante os combates. Em outras palavras, Trump chega à negociação devendo favores.
Circulam nos bastidores rumores de que Xi pode exigir, em troca de pressionar o Irã, concessões americanas em relação a Taiwan — tema que o próprio Trump antecipou ao dizer que o líder chinês “certamente vai traçar o assunto”. Analistas alertam que qualquer recuo dos EUA sobre Taiwan representaria uma ruptura histórica com décadas de política externa americana.
Viajando com Trump estão mais de uma dezena de executivos do alto escalão corporativo americano, incluindo Tim Cook, da Apple, e Elon Musk, da Tesla e SpaceX — presença que sinaliza que o governo quer transformar a visita também em uma vitrine comercial, independentemente do que aconteça no front diplomático.
Antes de embarcar, Trump deu sinais contraditórios sobre o peso do Irã nas conversas com Xi. Em um momento, afirmou que teriam “uma longa conversa sobre isso”. Minutos depois, recuou: “Não diria que o Irã é um dos temas, para ser honesto, porque temos o Irã totalmente sob controle.”
A contradição não passou despercebida. Um presidente que diz não precisar de ajuda, mas atravessa o Pacífico especificamente para pedir ajuda, está, no mínimo, negociando com a própria narrativa.
O cessar-fogo com o Irã, proclamado em 8 de abril, está, nas palavras do próprio Trump, “em suporte de vida massivo”. A pergunta que Pequim fará, antes de qualquer concessão, é simples: quanto vale, para Washington, sair vivo dessa guerra?
