Por que cada vez mais brasileiros estão se mudando para o Paraguai? Entenda o que está por trás desse movimento
Impostos de até 10%, energia 60% mais barata e custo de vida menor: entenda os motivos que levaram mais de 263 mil brasileiros a escolher o país vizinho como novo lar — e os riscos que essa decisão envolve
Filas de horas em postos migratórios de Ciudad del Este. Engenheiros, empresários e aposentados vendendo tudo no Brasil para comprar terrenos no Paraguai. Um fluxo migratório que mais do que dobrou em cinco anos. O que era curiosidade estatística se tornou fenômeno: o Brasil está exportando classe média para o país vizinho em ritmo acelerado — e a principal razão cabe em dois dígitos.
Segundo dados da Direção Nacional de Migrações do Paraguai, 23.526 brasileiros receberam autorização de residência no país em 2025 — mais da metade dos 40,6 mil pedidos totais registrados. O contingente nacional é tão expressivo que os argentinos, segunda maior nacionalidade solicitante, ficaram em menos de um quinto desse número, com 4,3 mil pedidos. A comunidade brasileira no país já soma mais de 263 mil pessoas, a terceira maior colônia do Brasil no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e Portugal.
O sistema 10-10-10 que mudou o cálculo
O coração da atratividade paraguaia é fiscal. O sistema “10-10-10” estabelece alíquotas de 10% para Imposto de Renda de Pessoa Física, 10% para Pessoa Jurídica e 10% para o IVA — o equivalente ao imposto sobre consumo. Enquanto isso, a carga tributária total do Brasil corresponde a cerca de 33% do PIB. No Paraguai, esse índice fica entre 10% e 14%.
“Na América do Sul, é o percentual mais baixo. No Brasil, como só a alíquota do IRPF pode chegar a 27,5%, pode fazer muita diferença no bolso para uma pessoa de classe média”, resume Lígia de Souza Cerqueira, secretária da Comissão Especial de Direito Internacional da OAB de São Paulo. Para empresários acostumados a 34% de imposto sobre lucro das empresas no Brasil, o alívio é imediato.
“Percebi que poderia viver bem aqui. Estou regularizando meu registro para atuar na minha área. Comprei um terreno e vou construir minha casa.”
Gabriela Nascimento, engenheira, ex-moradora de SC que migrou em jul/2025
Seis razões que explicam o movimento
IRPF de no máximo 10% contra 27,5% no Brasil. Empresas pagam 10% de IRE, contra 34% de IRPJ+CSLL brasileiro.
A abundância de Itaipu garante tarifa de eletricidade muito abaixo da média brasileira — essencial para indústrias e data centers.
Aluguel, alimentação e serviços são significativamente mais baratos. O país figura entre os 10% mais acessíveis do mundo, segundo o Expatistan.
Carros e eletrônicos chegam a custar metade do valor brasileiro. Num carro de R$ 100 mil no Brasil, cerca de metade corresponde a impostos.
O Paraguai tributa apenas renda gerada dentro do país. Nômades digitais e freelancers que atendem clientes no exterior podem ter renda isenta de imposto.
A Lei nº 6.984/2022 simplificou o sistema. Residência temporária em 1,5 a 4 meses; permanente em menos de 2 anos; cidadania em cerca de 3 anos.
Uma história que começa nos anos 1960
A presença brasileira no Paraguai não é novidade. Com a construção da Ponte da Amizade e o Tratado de Itaipu, a integração entre os dois países foi aprofundada. Nas décadas de 1970 e 1980, milhares de agricultores brasileiros cruzaram a fronteira atrás de terras baratas, transformando cidades como Santa Rita e Naranjal em potências agrícolas. Nasceu a figura dos “brasiguaios”, que introduziram o cultivo intensivo de soja e milho — base da atual economia paraguaia.
O que mudou nos últimos anos é o perfil do migrante. Antes eram agricultores. Agora são engenheiros, médicos, advogados, empresários e trabalhadores remotos — profissionais de renda média e alta que fazem o cálculo tributário e concluem que o Paraguai compensa. A Gazeta do Povo registrou o caso de Gabriela Nascimento, engenheira catarinense que ganhava R$ 22 mil mensais e viu boa parte desse salário desaparecer em impostos antes de decidir pela mudança.
Como funciona o processo de residência
Passaporte válido, certidão de nascimento apostilada e antecedentes criminais. A Lei 6.984/2022 eliminou exigências como comprovação de solvência financeira.
Obtida em 1,5 a 4 meses após protocolo na Direção Nacional de Migrações. Permite trabalhar e abrir empresas legalmente no país.
Solicitada após menos de 2 anos como residente temporário — prazo muito menor que o exigido por países europeus ou pelos EUA.
Disponível em cerca de 3 anos como residente permanente. Permite dupla cidadania — o Brasil reconhece o direito.
O que os entusiastas preferem não contar
A narrativa do “Eldorado paraguaio” tem sombras importantes que nem sempre aparecem nos vídeos de influenciadores financeiros. A tributação baixa reflete, em parte, uma arrecadação insuficiente para sustentar serviços públicos de qualidade — educação, saúde e infraestrutura ficam aquém do que o brasileiro de classe média está acostumado.
O Paraguai ocupa a 136ª posição no ranking de percepção de corrupção da Transparência Internacional — pior que o Brasil, que está na 104ª. Cerca de 27% da população paraguaia vive abaixo da linha da pobreza. A qualidade dos serviços públicos é significativamente inferior à brasileira. Especialistas recomendam planejamento tributário detalhado com advogado especializado antes de qualquer decisão.
Especialistas de direito internacional ouvidos pela imprensa brasileira alertam ainda que a legislação tributária paraguaia, embora atrativa no papel, tem nuances importantes: a tributação territorial, por exemplo, pode não beneficiar trabalhadores remotos da forma esperada, dependendo de como a renda é faturada e de acordos bilaterais vigentes. O assessoramento jurídico especializado é indispensável.
O movimento, de qualquer forma, já diz algo sobre o Brasil. Quando mais de 23 mil cidadãos por ano — metade de um contingente que dobrou em cinco anos — decidem trocar um país por outro que está a poucas horas de carro, a pergunta inevitável não é tanto o que o Paraguai oferece, mas o que o Brasil deixou de oferecer.

