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Por que os comunistas perderam espaço na Índia após governar mais de 100 milhões de pessoas por décadas?

O ocaso do comunismo indiano
Mundo · Ásia

De Kerala a Bengala Ocidental, um movimento que chegou a governar mais de 100 milhões de pessoas foi cedendo espaço ao nacionalismo hindu, à política de identidade e às suas próprias contradições internas

Redação 30 de maio de 2026 Análise
Marcos do comunismo indiano — 1957 a 2026
1957 Kerala elege 1º governo comunista do mundo por voto direto
1977 Frente de Esquerda assume Bengala Ocidental; ficará até 2011
1993 Esquerda governa Tripura por 25 anos consecutivos
2004 Partidos comunistas elegem 53 deputados na Lok Sabha
2011 Derrota histórica em Bengala Ocidental após 34 anos
2018 BJP derrota esquerda em Tripura após 25 anos
2024 Três partidos comunistas elegem apenas 8 deputados nacionais
2026 Kerala é perdida. Pela 1ª vez desde 1957, nenhum estado com governo comunista

Pela primeira vez desde 1957, a Índia não tem mais nenhum governo estadual liderado por comunistas. A derrota da Frente Democrática de Esquerda em Kerala, em abril de 2026, encerrou o último capítulo de uma experiência política sem paralelos no mundo democrático: décadas de governos comunistas eleitos que moldaram a vida de mais de 100 milhões de indianos, ergueram sindicatos, reformaram o campo e desafiaram o avanço do nacionalismo hindu — antes de, um a um, perderem o poder.

O colapso não foi abrupto. Foi uma longa erosão, acelerada por forças que os partidos de esquerda não souberam ou não quiseram enfrentar: a ascensão do BJP e do Hindutva, a fragmentação das bases rurais, a incapacidade de renovar a linguagem política para além da luta de classes e, talvez o mais revelador, as suas próprias contradições ideológicas quando confrontadas com o capitalismo globalizado.

O que foi construído — e o que se perdeu

No auge, os comunistas indianos governavam três estados de forma contínua. Em Bengala Ocidental, a Frente de Esquerda liderada pelo CPI (M) esteve no poder ininterruptamente de 1977 a 2011 — uma das administrações marxistas eleitas mais longas da história. Em Tripura, a esquerda somou 35 anos no governo, incluindo 25 consecutivos antes de ser derrotada pelo BJP em 2018. Em Kerala, o poder se alternou com o Partido do Congresso desde 1957, mas os comunistas permaneceram força central da política estadual por sete décadas.

Esse domínio não se resumiu ao poder executivo. Através de sindicatos poderosos, organizações camponesas, células universitárias e redes disciplinadas de quadros partidários, os comunistas exerceram influência sobre o pensamento econômico, cultural e intelectual da Índia muito além de suas bases eleitorais. “Apesar da estagnação econômica em Bengala Ocidental e das preocupações com o declínio dos padrões educacionais, os comunistas continuaram exercendo uma enorme influência sobre a vida intelectual e cultural”, observa o correspondente da BBC Soutik Biswas. “Muitos acreditam que a maior parte dessa influência já desapareceu.”

Bengala Ocidental: a queda mais traumática

A derrota de 2011 em Bengala Ocidental ainda é interpretada como um divisor de águas. Após sete vitórias consecutivas, o CPI (M) foi varrido pelo movimento liderado por Mamata Banerjee, do Trinamool Congress. As causas eram estruturais: a percepção de que o partido havia se tornado oligárquico, resistente à mudança e alheio à nova geração; escândalos de violência política; e uma guinada paradoxal — quando o governo comunista tentou atrair investimentos industriais, expropriando terras de pequenos agricultores em Singur e Nandigram, alienou justamente a base rural que havia sustentado seu poder por décadas.

“Em 1996, Jyoti Basu esteve muito perto de se tornar primeiro-ministro da Índia. Seu partido rejeitou a oferta — uma decisão que Basu mais tarde descreveria como um erro histórico.”

Soutik Biswas · BBC · 2026

Desde então, o CPI (M) em Bengala Ocidental não se recuperou. Nas últimas eleições estaduais, o partido conquistou apenas um assento na assembleia de 294 membros e obteve pouco mais de 4% dos votos. Redutos históricos que nunca haviam elegido representantes não-comunistas, como Payyannur, em Kerala, e Trikkaripur, tombaram em 2026.

Kerala: a exceção que virou símbolo — e também caiu

Kerala tinha orgulho de ser diferente. O “Modelo Kerala” — com seus índices excepcionais de alfabetização, longevidade, saúde pública e redução da pobreza — era citado em manuais de desenvolvimento humano como prova de que a esquerda democrática podia governar com eficiência. A descentralização do poder até os governos locais de vilarejo, garantindo acesso equitativo a educação e saúde entre os três principais grupos religiosos, era vista como conquista civilizatória.

Mas o modelo tinha fissuras. A dependência excessiva das remessas enviadas pelos trabalhadores emigrados para o Golfo Pérsico criava uma vulnerabilidade estrutural. A geração de empregos locais era insuficiente, especialmente para os jovens. E, mais revelador de todos os sinais, o próprio CPI (M) abandonou silenciosamente seus princípios: um documento de política de 2022 passou a endossar investimento privado, parcerias público-privadas e atração de capital multinacional — exatamente o modelo que o partido havia combatido por décadas.

Kerala 2026 — resultado das eleições estaduais
Partido / Frente Assentos em 2021 Assentos em 2026 Variação
LDF (Frente de Esquerda) 99 35 −64
CPI (M) isolado 62 26 −36
UDF (Frente do Congresso) 41 ~100 +59
BJP / NDA 1 3 +2

A derrota em 2026 foi descrita como um quase colapso. Treze ministros perderam seus assentos. Fortalezas históricas viraram. Até em Dharmadam — o reduto do ministro-chefe Pinarayi Vijayan —, o resultado foi disputado. O LDF caiu de 99 para apenas 35 assentos. O CPI (M) sozinho recuou de 62 para 26 — seu menor número em anos.

As forças que derrubaram a esquerda

Analistas identificam um conjunto de fatores convergentes. O primeiro é estrutural: a luta de classes como linguagem política perdeu apelo numa sociedade em rápida urbanização, com uma classe média crescente mais atraída por promessas de mobilidade individual do que por projetos coletivos. “A luta de classes e a mobilização coletiva têm constantemente dado lugar a políticas de identidade, nacionalismo, líderes populistas e distribuição de benefícios sociais”, resume análise da BBC.

O segundo fator é o BJP. A ascensão do Partido Bharatiya Janata, com sua plataforma de nacionalismo hindu e liderança carismática de Narendra Modi, reconfigurou o mapa político nacional. Em estados onde a esquerda havia construído coalizões multirreligiosas — sobretudo com eleitores muçulmanos —, o BJP passou a capitalizar tensões de identidade que os comunistas não souberam gerir. Em Bengala Ocidental, uma mudança de quase 10% no voto muçulmano em 2009 foi o prenúncio do colapso de 2011.

O terceiro fator é interno: o envelhecimento dos quadros, a resistência à renovação e escândalos pontuais de corrupção e violência política que corroeram a imagem de probidade que sustentava o capital simbólico da esquerda. Em Kerala, houve ainda o que analistas descrevem como uma tentativa de “Hindutva suave” — gestos simbólicos para atrair o eleitorado hindu —, que não conquistou votos majoritários mas alienou eleitores progressistas. “Se você é um partido de esquerda, sua força está em oferecer uma alternativa clara. No momento em que essa linha se torna turva, você não está apenas confundindo os eleitores — está enfraquecendo sua própria base”, avalia a revista Newslaundry.


O que resta da esquerda indiana

A esquerda indiana não desapareceu — apenas foi drasticamente reduzida. Em Kerala, mesmo na derrota, a Frente de Esquerda manteve cerca de um terço dos votos, sinalizando que os comunistas continuam sendo uma força política relevante, ainda que fora do poder. Em Tamil Nadu, a esquerda sobrevive principalmente por meio de alianças com partidos regionais. No plano nacional, os três principais partidos comunistas reunidos elegeram oito deputados em 2024 — contra 53 em 2004.

Em Bengala Ocidental, lideranças do CPI (M) prometem “reagrupamento e rejuvenescimento”, promovendo uma geração mais jovem à linha de frente. “Os comunistas devem se rejuvenescer constantemente. A única constante é a mudança em si”, disse ao jornal Himal Southasian o dirigente comunista Baby. Mas a escala do declínio é difícil de ignorar.

O que o comunismo indiano deixa como legado é ambíguo e disputado. De um lado, reformas agrárias que redistribuíram terras, sistemas de saúde pública de referência, batalhas pela preservação de direitos trabalhistas e um papel civilizador no combate às divisões de casta e religião em estados onde essas fraturas eram abissais. De outro, uma incapacidade crônica de adaptar a linguagem e a prática política a uma sociedade que mudou mais rápido do que o partido soube acompanhar.

A pergunta que paira sobre os herdeiros dessa tradição é se a crise atual representa apenas uma derrota eleitoral — reversível — ou o fim de um ciclo histórico mais longo. A resposta provavelmente dirá tanto sobre o futuro da esquerda democrática no mundo quanto sobre a Índia.

Fontes: BBC News Brasil / Correio Braziliense (Soutik Biswas, correspondente na Índia) · Jacobin Brasil · Outras Palavras · The Federal (Índia) · Newslaundry (Índia) · Deccan Herald · The Tricontinental · Publicado em 30 de maio de 2026

Redação

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