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A cidade dos Estados Unidos onde quase toda a população vive dentro do mesmo prédio

Em uma cidade do sul do Alasca, a maior parte dos moradores nunca precisa sair de casa para trabalhar, estudar, comprar comida ou ir à igreja. Tudo isso acontece dentro do mesmo edifício de catorze andares, erguido originalmente para abrigar soldados durante a Guerra Fria.

Whittier fica encravada em um estreito vale cercado por montanhas e geleiras, às margens do Prince William Sound, no litoral sul do Alasca. A cidade tem pouco mais de 250 moradores permanentes, e a grande maioria deles vive dentro de um único complexo residencial, o Begich Towers, um prédio de catorze andares que concentra apartamentos, comércio, serviços públicos e até a escola municipal. A situação, incomum para qualquer padrão urbano, não nasceu de um capricho arquitetônico, mas de uma combinação de isolamento geográfico, clima extremo e um passado militar que moldou a cidade desde a sua fundação.

A história de Whittier começa durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Exército dos Estados Unidos identificou o vale como um ponto estratégico para a construção de um porto militar protegido de ataques aéreos, já que as montanhas ao redor dificultavam a visibilidade e o acesso pelo ar. A localização, no entanto, tinha um preço: ventos que ultrapassam 160 quilômetros por hora em dias de tempestade, neve acumulada em metros durante boa parte do ano e um isolamento quase total do restante do continente. Foi para enfrentar essas condições que o Exército decidiu concentrar a vida da futura cidade em estruturas fechadas e interligadas, em vez de espalhar construções pelo vale.

O prédio que hoje abriga a maior parte da população foi erguido em 1957, ainda sob administração militar, e recebeu inicialmente o nome de Hodge Building. Sua função original era servir de moradia para militares e famílias de oficiais durante o período em que Whittier funcionava como base logística estratégica dos Estados Unidos, papel que a cidade manteve durante boa parte da Guerra Fria. Quando a presença militar na região diminuiu, ao longo das décadas seguintes, a estrutura foi adaptada para uso civil e passou a se chamar Begich Towers, nome que carrega até hoje.

O edifício foi projetado para resistir a ventos fortes e a tremores de terra, comuns na região por causa da atividade sísmica do Alasca, e essa robustez estrutural é parte do motivo pelo qual a cidade nunca desenvolveu um traçado urbano convencional, com ruas e casas espalhadas. Dentro do Begich Towers funcionam apartamentos residenciais de diferentes tamanhos, uma agência dos correios, um mercado de conveniência, uma lavanderia comunitária, um posto de saúde, uma delegacia de polícia e uma igreja. A escola da cidade, embora fique em uma construção separada, é conectada ao prédio por um túnel subterrâneo aquecido, o que permite que as crianças cheguem às aulas sem precisar enfrentar as temperaturas negativas e os ventos cortantes do inverno.

Essa concentração de serviços em um espaço só resolve, na prática, um problema que cidades pequenas e isoladas costumam enfrentar em climas extremos: a dificuldade de manter infraestrutura espalhada, aquecida e funcional durante meses de neve intensa. Em vez de multiplicar prédios, tubulações e sistemas de aquecimento por toda a cidade, Whittier optou por reunir praticamente tudo sob o mesmo teto, reduzindo custos de manutenção e o tempo que os moradores passam expostos ao frio extremo.

A questão da propriedade da terra também ajuda a explicar por que a cidade nunca se expandiu para um modelo urbano tradicional. A Alaska Railroad, companhia ferroviária estatal, é dona de parte significativa do território onde Whittier está construída, o que limita a expansão imobiliária da região e reforça a lógica de concentrar moradias em um único complexo vertical, em vez de loteamentos horizontais. Os apartamentos do Begich Towers podem ser comprados ou alugados, mas o mercado imobiliário da cidade é pequeno e pouco convencional, já que praticamente todas as opções de moradia estão dentro do mesmo prédio.

O acesso a Whittier também contribui para o caráter isolado da cidade. A única via terrestre que liga o município ao restante do Alasca é o túnel Anton Anderson Memorial, com cerca de quatro quilômetros de extensão, considerado um dos túneis rodoferroviários mais longos da América do Norte. A passagem é compartilhada por carros e trens, que se revezam em horários alternados ao longo do dia, já que a estrutura não comporta tráfego simultâneo nos dois sentidos. Fora do horário de funcionamento do túnel, a cidade fica praticamente inacessível por terra, o que reforça o isolamento e ajuda a explicar por que a vida comunitária se organiza de forma tão compacta.

Apesar do isolamento e da arquitetura pouco convencional, Whittier não é uma cidade fechada ao mundo. Durante os meses de verão, quando as temperaturas sobem e os dias ficam mais longos, a cidade recebe um número relevante de visitantes atraídos pela paisagem do Prince William Sound, especialmente para passeios de barco em busca de baleias, focas e geleiras, além de trilhas de caminhada nas montanhas ao redor. O contraste entre o fluxo de turistas no verão e o isolamento quase total no inverno é uma das características mais marcantes da rotina local.

Além dos serviços essenciais, o Begich Towers abriga também um pequeno hotel de dois andares, usado principalmente pelos visitantes que chegam à cidade fora da temporada de cruzeiros e passeios marítimos. A presença de um empreendimento hoteleiro dentro do mesmo prédio onde vivem os moradores reforça o caráter multifuncional da estrutura, que foi se adaptando ao longo das décadas para atender tanto à população fixa quanto ao fluxo variável de turistas e trabalhadores temporários ligados à pesca e ao turismo de verão.

O abastecimento da cidade também depende diretamente do isolamento geográfico e das janelas de funcionamento do túnel Anton Anderson Memorial. Mercadorias, alimentos e insumos para o posto de saúde e para o mercado de conveniência chegam por caminhões que atravessam a passagem nos horários liberados para veículos, ou por embarcações que utilizam o porto da cidade. Em dias de tempestade severa, quando o túnel pode ser fechado por questões de segurança, os moradores recorrem aos estoques do mercado local, o que reforça a importância de manter os serviços básicos concentrados e de fácil acesso dentro do próprio prédio.

O Alasca, onde Whittier está localizado, é o maior estado dos Estados Unidos em extensão territorial, fazendo fronteira com o Canadá e banhado pelos oceanos Pacífico e Ártico. O território foi comprado da Rússia em 1867, por 7,2 milhões de dólares, em uma negociação que na época foi criticada por parte da opinião pública americana, mas que décadas depois se mostrou estratégica para os Estados Unidos. O Alasca só se tornou oficialmente um estado americano em 1959, e desde então mantém características muito distintas do restante do país, com áreas de baixíssima densidade populacional, comunidades isoladas e um clima que impõe soluções urbanas fora do padrão, como a de Whittier.

Para quem vive no Begich Towers, a proximidade constante com os vizinhos criou, ao longo dos anos, uma rotina de convivência bastante particular. Moradores relatam que conhecem praticamente todos os outros residentes do prédio, já que os mesmos corredores, elevadores e espaços comuns são usados por quem mora, trabalha e estuda ali. Essa característica, incomum para os padrões urbanos americanos, transformou Whittier em um caso frequentemente citado em reportagens e documentários sobre formas alternativas de organização urbana em regiões de clima extremo, despertando curiosidade tanto de pesquisadores quanto do público em geral.

Whittier segue sendo, décadas depois da construção do Begich Towers, um dos exemplos mais concretos de como o ambiente natural pode determinar a forma como uma comunidade organiza sua vida cotidiana. Entre montanhas, geleiras e ventos que chegam a superar os 160 quilômetros por hora, a cidade encontrou na verticalização e na concentração de serviços uma resposta prática para sobreviver em um dos cantos mais isolados dos Estados Unidos.

Redação

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