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Operação rastreia R$ 100 milhões de três facções e apura elo de investigado com homem sancionado por suposta ligação à Al-Qaeda

Crime Organizado

Operação Hawala alcança quatro estados, prende oito pessoas e investiga se uma rede criada para ocultar dinheiro do tráfico ultrapassou as fronteiras brasileiras.

Uma investigação iniciada a partir do tráfico de drogas no Complexo de São Carlos, na região central do Rio de Janeiro, levou as autoridades a uma estrutura financeira que teria movimentado mais de R$ 100 milhões para três das principais facções criminosas do país.

A Operação Hawala, realizada em 15 de julho de 2026 pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, cumpre ordens de prisão e de busca no Rio de Janeiro, em São Paulo, Minas Gerais e Foz do Iguaçu, no Paraná.

O Ministério Público denunciou 22 pessoas à Justiça. Foram expedidos mandados de prisão contra dez delas e, até o início da manhã, oito haviam sido presas, segundo o balanço divulgado pela Polícia Civil.

A apuração atribui à rede o uso de empresas de fachada, depósitos fracionados, contas de terceiros e profissionais cooptados para colocar no sistema financeiro valores provenientes de crimes. Em uma frente ainda sob investigação, os policiais verificam uma possível conexão com financiamento de organizações internacionais classificadas como terroristas.

R$ 100 milhões
Movimentação investigadaRecursos que teriam circulado entre 2021 e 2024 por empresas e pessoas ligadas ao esquema.
22 denunciados
Acusação apresentadaNúmero de pessoas incluídas na denúncia oferecida pelo Ministério Público à Justiça.
3 facções
Grupos alcançadosTCP, Comando Vermelho e PCC aparecem na reconstrução apresentada pelos investigadores.

Investigação começou em uma comunidade do Rio

O ponto de partida foi uma apuração sobre o grupo que controla a venda de drogas no Complexo de São Carlos. A organização local é associada ao Terceiro Comando Puro, conhecido pela sigla TCP.

Ao acompanhar o caminho do dinheiro, os investigadores afirmam ter encontrado uma estrutura mais ampla do que a inicialmente imaginada. O mesmo mecanismo teria sido utilizado para ocultar recursos de grupos ligados ao Comando Vermelho e ao Primeiro Comando da Capital.

Essa ampliação mudou a dimensão do caso. A apuração deixou de observar apenas a arrecadação de uma área dominada pelo tráfico e passou a examinar uma rede interestadual capaz de atender organizações diferentes.

Os valores teriam origem na venda de drogas, receptação qualificada e comércio de produtos falsificados. O objetivo das operações financeiras seria romper a ligação visível entre o dinheiro e os crimes que o produziram.

Empresas recém-criadas davam aparência legal aos valores

Segundo a denúncia, empresas de fachada eram abertas para receber depósitos e realizar movimentações incompatíveis com sua capacidade econômica. Em vez de o dinheiro permanecer ligado diretamente aos integrantes das facções, passava por pessoas jurídicas com aparência de atividade comercial regular.

A investigação cita depósitos fracionados, uso de “laranjas” e cooptação de contadores. O fracionamento divide uma grande quantia em operações menores; os intermediários colocam nomes e contas entre o dinheiro e seu beneficiário real; e as empresas fornecem documentos e movimentações capazes de simular receitas legítimas.

Centenas de transações bancárias e as atividades de diferentes empresas foram analisadas. A Polícia Civil afirma ter encontrado movimentações muito superiores à capacidade financeira declarada pelos investigados e pelas pessoas jurídicas envolvidas.

Essa diferença entre a atividade conhecida e o volume movimentado é um dos elementos usados para reconstruir o fluxo. Ela não resolve o caso sozinha, mas orienta a busca por contratos, notas fiscais, transferências, vínculos societários e destinatários finais.

Como o dinheiro ilícito reaparece como se fosse legal

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras explica que a lavagem de dinheiro costuma ser descrita em três fases teóricas. Elas podem acontecer separadamente ou ao mesmo tempo.

Colocação
O dinheiro de origem criminosa é inserido no sistema econômico por depósitos, compra de bens ou operações comerciais.
Ocultação
Transferências sucessivas e intermediários dificultam a reconstrução da origem e da cadeia financeira.
Integração
Depois de circular, o patrimônio retorna à economia com aparência de receita, investimento ou atividade legítima.

Os mecanismos atribuídos à rede investigada aparecem em pontos diferentes desse processo. Depósitos fracionados podem ajudar na colocação; contas e empresas sucessivas dificultam o rastreamento; e negócios aparentemente regulares permitem reinserir o dinheiro.

O nome Hawala é tradicionalmente associado a sistemas informais de transferência de valores baseados em uma rede de operadores. A escolha do nome da operação indica o interesse das autoridades em fluxos que podem circular por intermediários sem seguir um caminho bancário simples e direto.

Possível conexão internacional ainda não foi comprovada

A parte mais sensível da investigação surgiu quando os policiais identificaram uma relação comercial entre um dos investigados e um homem sancionado pelo governo dos Estados Unidos.

Segundo a Polícia Civil, esse homem é apontado pelas autoridades norte-americanas como possível integrante de uma estrutura de financiamento da Al-Qaeda. A existência da relação comercial levou a uma nova linha de apuração.

Até o momento, não foi anunciado que o dinheiro das facções brasileiras efetivamente financiou a organização. O que existe é uma suspeita que será aprofundada por meio de transações, comunicações, contratos e cooperação entre autoridades.

Diferença fundamental: uma relação comercial identificada não prova financiamento do terrorismo. A investigação precisa demonstrar a origem, o destino e a finalidade dos recursos antes de estabelecer essa conexão.

O Coaf diferencia os dois fenômenos. Na lavagem, o objetivo é esconder a origem criminosa do patrimônio. No financiamento do terrorismo, recursos de origem legal ou ilegal podem ser reunidos para sustentar atividades terroristas.

A proximidade entre os temas está na necessidade de identificar beneficiários reais, interromper fluxos e compartilhar informações entre países. Por isso, uma ligação internacional pode exigir dados bancários, registros empresariais e medidas de cooperação fora do Brasil.

Por que três facções usariam a mesma estrutura

A investigação sugere que o serviço financeiro clandestino poderia operar além das fronteiras de uma facção. Isso não significa necessariamente aliança operacional entre TCP, Comando Vermelho e PCC.

Grupos rivais podem recorrer aos mesmos intermediários para resolver um problema comum: transformar grande volume de dinheiro em patrimônio que possa circular sem exposição direta. A rede financeira, nesse cenário, funcionaria como prestadora de um serviço ilegal.

As autoridades agora precisam individualizar quem controlava as empresas, quem depositava, quem autorizava transferências e quem recebia os valores ao final. Também será necessário separar as movimentações atribuídas a cada grupo.

Denúncia não significa condenação

As 22 pessoas denunciadas passam a enfrentar uma acusação formal apresentada pelo Ministério Público. A Justiça analisará o conteúdo e as provas, e os acusados terão direito de apresentar defesa e contestar a reconstrução financeira.

Os oito presos até o balanço inicial estão sob medidas determinadas judicialmente. A prisão durante a investigação ou o processo não substitui o julgamento nem autoriza considerar alguém definitivamente culpado.

Os próximos passos incluem a análise do material apreendido, o cumprimento das ordens restantes, a identificação de ativos e o aprofundamento da possível conexão internacional.

O ponto de maior valor público será descobrir se o esquema realmente funcionava como uma infraestrutura financeira compartilhada e quem eram seus beneficiários finais. Seguir o dinheiro permite atingir uma parte do crime organizado que costuma permanecer longe das áreas onde os delitos são executados.

Fontes e estágio da apuração

Os dados da Operação Hawala foram divulgados em 15 de julho de 2026 pela Agência Brasil, com base na Polícia Civil e no Ministério Público do Rio de Janeiro. A explicação técnica foi confrontada com o material do Coaf. A matéria distingue fatos divulgados, acusações e hipóteses ainda em investigação.

Redação

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